O Tzolk'in não conta anos: conta dias, em ciclos de duzentos e sessenta. Treze números girando contra vinte signos, como duas engrenagens de tamanhos diferentes - e só depois de 260 dias o mesmo par volta a se encontrar. Escolha uma data.
Vinte signos de dia, na ordem em que se sucedem desde Imix. Cada um governa o seu dia inteiro e volta a cada vinte dias, com um número diferente de cada vez - e só reencontra o mesmo número depois de duzentos e sessenta.
Os treze números
Para os ajq'ij, os guardiães do calendário das terras altas da Guatemala, o número não é um adjetivo do signo: é a força com que ele chega. Os baixos são suaves e ainda sem forma; os do meio, fortes e equilibrados; os altos, excessivos - poderosos e difíceis de manejar.
| Nº | K'iche' | Qualidade | Como chega |
|---|---|---|---|
| 1 | Jun | o propósito | Semente e intenção. O número um é gentil e ainda sem forma: o dia começa uma coisa que só será entendida depois. Força baixa, direção clara. |
| 2 | Keb' | a polaridade | O par e o desafio. Tudo que é dois tem dois lados, e o dia traz a tensão entre eles. Força baixa; bom para escutar o contrário do que se pensa. |
| 3 | Oxib' | o movimento | A ação que sai do lugar. Ainda é força pequena, mas já é força que anda. Dia de dar o primeiro passo prático. |
| 4 | Kajib' | a medida | Os quatro cantos, a forma, o limite. O dia pede estrutura e definição de contorno. Força moderada, estabilidade acima da média. |
| 5 | Job' | o centro que reúne | O primeiro dos números fortes. Cinco reúne, concentra e dá autoridade; os ajq'ij o consideram um número já pesado, de resultados concretos. |
| 6 | Waqib' | o fluxo | Organização e equilíbrio em movimento. Força alta e estável: dia de fazer funcionar, mais que de decidir. |
| 7 | Wuqub' | o eixo | O centro exato dos treze, com seis de cada lado. Sete é o ponto de equilíbrio e também de maior exposição - dia de reflexão e de escolha, não de impulso. |
| 8 | Wajxaqib' | a justiça | Harmonia e integridade; para os day-keepers, um dos dias mais propícios do ciclo, dedicado às cerimônias importantes. Força alta e limpa. |
| 9 | B'elejeb' | a plenitude do trabalho | Nove é o número dos ciclos longos e das grandes realizações, e também o dos nove meses. Força muito alta; o que se faz aqui pesa. |
| 10 | Lajuj | a manifestação | O que era interno se torna visível e público. Dez já é força excessiva: o resultado aparece, com tudo que ele tem de bom e de desconfortável. |
| 11 | Julajuj | a dissolução | O que estava rígido se solta. Onze desfaz para simplificar, e por isso é dia instável e libertador ao mesmo tempo. Força excessiva. |
| 12 | Kab'lajuj | a compreensão | A colheita do entendimento: o dia em que se entende o que aconteceu. Força excessiva, mas voltada para dentro; bom para reunir gente e fechar contas. |
| 13 | Oxlajuj | a transcendência | O último e o mais forte. Treze leva o assunto até o limite e o devolve transformado; os ajq'ij tratam esses dias com cuidado. Termina o ciclo e devolve ao um. |
Duas engrenagens
O Tzolk'in é o mais antigo calendário mesoamericano de que se tem notícia - anterior aos próprios maias, provavelmente olmeca ou zapoteca - e é o único que nunca deixou de ser usado. Ele conta 260 dias, e não 365: treze números correndo ao mesmo tempo que vinte signos, cada um no seu passo.
No primeiro dia é 1 Imix. No seguinte, 2 Ik'. No terceiro, 3 Ak'b'al. Quando os números chegam a 13 recomeçam do 1, mas os signos continuam; quando os signos chegam ao vigésimo recomeçam de Imix, mas os números continuam. O mesmo par só se repete depois de 13 × 20 = 260 dias, que é o mínimo múltiplo comum dos dois ciclos.
Por que 260? Há várias explicações e nenhuma prova: é aproximadamente a duração da gestação humana; é o intervalo entre as duas passagens do Sol pelo zênite na latitude de Copán; é o produto de dois números sagrados. Provavelmente é tudo isso ao mesmo tempo, o que é bem a maneira maia de organizar as coisas.
O Haab' e a Roda Calendárica
Ao lado do Tzolk'in corria o Haab', o ano vago de 365 dias: dezoito meses de vinte dias mais um resto de cinco, o Wayeb', tido por perigoso e vazio. Os dois calendários giravam juntos, e a combinação de um dia do Tzolk'in com um dia do Haab' - por exemplo 4 Ajaw 8 Kumk'u - só se repetia a cada 52 anos. Esse ciclo de 52 anos é a Roda Calendárica, e era a unidade de vida de uma pessoa: quem chegasse aos 52 tinha dado a volta inteira.
Para datar séculos e não vidas, os maias clássicos usavam a Conta Longa: dias contados desde uma data zero mítica, agrupados em kin (dia), winal (20 dias), tun (360), k'atun (7.200) e b'ak'tun (144.000). É a conta que aparece nas estelas, e é a que dá a esta mesa a possibilidade de calcular qualquer data.
A correlação - e por que existe mais de uma resposta
Para dizer que dia maia corresponde a que dia do nosso calendário é preciso uma constante de correlação: quantos dias julianos separam o zero maia do nosso zero. Esta mesa usa a GMT 584283 - as iniciais de Goodman, Martínez e Thompson -, que é a aceita pela arqueologia e a confirmada por datação de radiocarbono nos lintéis de Tikal. Por ela, o dia zero da Conta Longa foi 11 de agosto de 3114 a.C., e 13.0.0.0.0 caiu em 21 de dezembro de 2012.
Convém saber de uma coisa: o calendário maia que circula em livros de auto-ajuda e aplicativos - o Dreamspell ou Encantamento do Sonho, criado por José Argüelles nos anos 1980 - não usa esta correlação e ignora o dia bissexto, de modo que dá outro resultado, cada vez mais distante com o passar dos anos. Não é a mesma conta que esta, nem a que os ajq'ij guatemaltecos seguem até hoje. As duas coisas se chamam calendário maia e não são a mesma coisa; esta mesa segue a conta tradicional.
Como se lê um dia
Um dia do Tzolk'in é sempre um par: número + signo. O signo diz de que natureza é o dia; o número diz com que força ele chega. Um mesmo signo é uma coisa em 1 e outra bem diferente em 13.
Nas terras altas da Guatemala, onde a conta nunca foi interrompida, o dia do nascimento é chamado de nawal da pessoa e descreve o seu caráter e a sua vocação. Os ajq'ij ainda hoje são procurados para dizer qual é o nawal de uma criança, e certos dias - sobretudo 8 B'atz', que abre o ciclo de formação - reúnem centenas de pessoas nos altares.
Esta mesa dá o dia, o número, a Roda Calendárica completa e a Conta Longa. Não pretende substituir um ajq'ij, que faz uma coisa que nenhuma máquina faz: conhece a pessoa.